Tratamento > Terapia fonoaudiológica na taquifemia
Cristiane Moço Canhetti de Oliveira
Departamento de Fonoaudiologia - UNESP - Marília


A taquifemia é um distúrbio pouco descrito na literatura, assim sendo, todo esforço da comunidade científica no sentido de discutir esta temática entre os profissionais envolvidos é relevante, favorecendo o aumento dos estudos nesta área.

O objetivo geral da intervenção fonoaudiológica na taquifemia é melhorar a comunicação do indivíduo, priorizando a redução da velocidade, a diminuição das disfluências e o aumento da inteligibilidade da fala. Para atingir esta meta, algumas considerações gerais sobre a terapia serão discutidas e, posteriormente, uma proposta de objetivos terapêuticos será apresentada, fundamentada nos estudos teóricos e na prática clínica.

O terapeuta que trabalha com este distúrbio precisa ser persistente e demonstrar motivação para o paciente, já que a falta ou a pouca consciência das manifestações clínicas é uma de suas características, freqüentemente ocasionando desmotivação no taquifêmico. A complexidade dos sintomas apresentados, a motivação do taquifêmico, bem como a compreensão e colaboração da família influenciam no prognóstico terapêutico.

Devido ao amplo espectro sintomatológico do distúrbio, existem várias recomendações de estratégias terapêuticas que incluem, além da fala e da linguagem, outras habilidades que podem interferir na comunicação do taquifêmico. Alguns objetivos terapêuticos que têm sido enfocados na terapia por mais de uma década de experiência clínica serão apresentados, entre eles: o monitoramento, a redução da velocidade de fala, a amplitude e precisão articulatória, a prosódia, a coordenação pneumo-fono-articulatória e a linguagem.

No início do processo de terapia com o taquifêmico, alguns objetivos podem ser priorizados, como a motivação, a identificação das características da comunicação e a conscientização das dificuldades relativas à velocidade e a inteligibilidade da fala. Este trabalho facilitará a percepção do distúrbio por parte do indivíduo, propiciando a compreensão dos objetivos e estratégias que serão trabalhados na intervenção, além de favorecer o auto-monitoramento da fala, que, por sua vez, deve ser enfatizado desde o início do processo de intervenção, para que o paciente consiga transferir e manter a fala obtida na terapia para o ambiente domiciliar, escolar e social. Análises de registros auditivos e audiovisuais de sua fala podem ser utilizadas como estratégias terapêuticas visando a identificação de trechos da fala no qual o taquifêmico não conseguiu manter o monitoramento.

O trabalho de redução, regularização e controle da velocidade da fala pode ser realizado junto com a precisão e amplitude articulatória, assim como a coordenação pneumo-fono-articulatória. Este enfoque terapêutico simultâneo entre o controle respiratório, a velocidade da fala e a articulação, além de facilitar o monitoramento da fala, aumentará a inteligibilidade da mesma. Vale ressaltar que o taquifêmico apresenta muita dificuldade em reduzir e manter uma nova velocidade de fala. Portanto, o terapeuta deve utilizar vários recursos com o paciente, como a gravação e a apresentação da fala registrada, a transcrição desta amostra, mostrando as conseqüências da velocidade de fala aumentada, entre outros. O metrônomo também é um instrumento que tem sido utilizado com sucesso para alcançar estes objetivos. Fala compassada, prolongamento das vogais, atenção aos finais de palavras, vogais e sílabas não tônicas, bem como o uso do mascaramento e feedback auditivo atrasado são outras estratégias terapêuticas.

A prosódia e a naturalidade da fala devem ser enfatizadas para obter como resultado uma fala próxima do normal em termos de velocidade, articulação, fluência e prosódia. A prosódia da fala é trabalhada de acordo com cada paciente, podendo enfocar tanto o estresse silábico das palavras, como também a curva melódica das frases. Neste trabalho, assim como no anterior, é necessário seguir uma hierarquia de complexidade das dificuldades (aumento gradual do tamanho e da complexidade das emissões e diminuição gradativa das pistas oferecidas). Esta organização da seqüência de metas a serem atingidas favorecerá a transferência e manutenção dos resultados obtidos com a terapia fonoaudiológica.

Dependendo do quadro clínico do indivíduo com taquifemia, a linguagem oral e escrita deve ou não ser trabalhada. Nos casos de alteração da linguagem, freqüentemente enfatizamos a organização das frases, a seqüência dos eventos, o ater-se ao tema e a realização adequada de trocas de turnos. Narrativas coerentes e sentenças sintaticamente aceitáveis podem ser eliciadas inicialmente com frases mais simples e curtas, progredindo para sentenças maiores e mais complexas. O trabalho de linguagem escrita, quando necessário, deve ser realizado com a utilização de técnicas específicas. A experiência clínica tem mostrado que este trabalho de linguagem oral e escrita deve ser associado, visando maior eficácia terapêutica.

As orientações fonoaudiológicas aos familiares constituem uma ferramenta essencial neste processo. O ambiente favorável à aquisição de uma fala mais lenta, fluente e inteligível por parte do taquifêmico, pode ser obtido por meio dos modelos adequados de comunicação oferecidos ao paciente. Recursos visuais também podem ser utilizados para facilitar o monitoramento da fala, de acordo com a aceitação por parte do paciente.

A fluência, na maioria dos casos, aumenta, sendo resultado do trabalho descrito anteriormente. Caso as disfluências persistam, recomenda-se o trabalho específico de promoção da fluência. A alta fonoaudiológica deve ser gradativa, aumentando os intervalos de retornos. Fazer com que o paciente e sua família se conscientizem do auto-monitoramento necessário para o controle da própria fala, também é fundamental nesta etapa do processo terapêutico.

O resultado provável do tratamento irá variar de acordo com a diversidade das manifestações que o indivíduo poderá apresentar, da freqüência de aparecimento dos sintomas e do quanto está comprometida a sua comunicação. Quando o paciente quer melhorar a sua fala e/ou quando consegue perceber mais conscientemente sua dificuldade de comunicação, que lhe permite vigiar a sua produção de fala, geralmente apresenta um melhor resultado.

As metas descritas anteriormente são fonoaudiológicas, porém, alguns taquifêmicos precisam de outros profissionais para conseguir um resultado terapêutico mais satisfatório, como, por exemplo, psicólogos, foniatras, neurologistas, entre outros. No Centro de Estudos da Educação e da Saúde (CEES) temos disponibilizado aos taquifêmicos além do atendimento especializado em distúrbios de aprendizagem para crianças em idade escolar, o atendimento psicológico com enfoque no trabalho da redução e controle da ansiedade. Freqüentemente, temos observado que os pacientes que recebem estes atendimentos apresentam melhor prognóstico terapêutico.

Finalmente, acredito que na medida em que a taquifemia for mais discutida e reconhecida pelos profissionais, possivelmente aumentará o número de casos descritos. Conseqüentemente, o conhecimento a respeito do distúrbio aumentará, o que favorecerá o desenvolvimento de programas terapêuticos.

   
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